A arte de complicar a própria vida





Há uma ideia incômoda que atravessa boa parte da psicologia moderna: muitas vezes não sofremos só pelo que acontece, mas sobretudo pelas histórias que contamos sobre o que acontece. Entre o fato e a interpretação, abrimos um espaço onde cabem exageros, medos antigos, comparações e roteiros prontos – e é aí que a vida, que já é difícil, fica ainda mais pesada.


Um dos caminhos mais comuns para isso é a idealização do passado. Editamos lembranças, tiramos as falhas, aumentamos as cores boas e, depois, usamos essa versão “refilmada” como régua para medir o presente. O resultado é quase sempre injusto: o agora, imperfeito e real, nunca vence uma memória cuidadosamente embelezada. Autores da psicologia cognitiva descrevem esse mecanismo como distorção seletiva: escolhemos o que lembrar e, em seguida, sofremos com a comparação que nós mesmos montamos.

Outro mecanismo são as profecias autorrealizáveis. Espero ser rejeitado, então me antecipo: fico frio, defensivo, irônico, distante. O outro sente esse muro e se afasta; depois eu digo “tá vendo? eu tinha razão”. A crença vira lente, a lente muda o comportamento, o comportamento altera o resultado – e o resultado confirma a crença. É um círculo vicioso discreto, quase sempre inconsciente.

Há ainda a evitação como estilo de vida. Para não sentir medo, deixo de ir, de tentar, de falar, de me expor. A curto prazo, vem alívio. A longo prazo, o mundo encolhe: menos experiências, menos contato, menos repertório. O medo, que parecia contido, passa a ocupar tudo. Linhas como as da Terapia de Aceitação e Compromisso mostram bem essa armadilha: quanto mais fujo da dor, mais organizo a minha vida em função dela.

Um quarto eixo é o hábito de ler o mundo como recado pessoal. Uma xícara na pia, uma mensagem seca, um silêncio neutro: qualquer detalhe pode virar prova de desinteresse, crítica velada, complô. Daniel Kahneman fala da nossa mente rápida, que adora histórias coerentes, mesmo que pouco fiéis aos fatos. Nesse registro, o problema não é o gesto em si, mas a legenda que colocamos embaixo dele – quase sempre com tinta escura.

Por fim, vem a comparação constante, que transforma a vida em jogo de soma zero: se o outro ganha, eu perco; se o outro brilha, eu escureço. Pensadores como Byung-Chul Han e tantos críticos da “sociedade do desempenho” mostram como essa lógica corrói relações e identidade. Em vez de inspiração, o sucesso alheio vira ameaça; em vez de partilha, surge uma contabilidade secreta de quem está “na frente”.

Paul Watzlawick, entre outros autores, chamou atenção para esses modos de pensar justamente porque eles são banais: não aparecem só em grandes crises, mas no dia a dia, em detalhes domésticos, gestos simples, frases soltas. A força da sua visão está em mostrar o quanto nos apegamos às nossas interpretações, mesmo quando elas aumentam a dor.

Nada disso significa negar a realidade da perda, da injustiça ou do sofrimento objetivo. Significa apenas reconhecer que, dentro do que não controlamos, existe um trecho mínimo de liberdade: a forma como vamos olhar, nomear, responder.

Talvez o primeiro passo seja aprender a desconfiar com carinho das nossas certezas mais dramáticas: daquela memória perfeita demais, daquele “eu já sabia” que se repete, daquele medo que manda em tudo, daquela leitura maldosa do gesto neutro, daquela comparação que nunca nos deixa em paz.

Descomplicar a vida não é apagar a dor, mas deixar de acrescentar camadas desnecessárias a ela. É abrir um pouco mais de espaço entre o mundo e a história que contamos sobre o mundo – e, nesse intervalo, respirar diferente.

Veja aqui as músicas baseadas neste tema.

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