A certa altura da vida, a memória deixa de ser apenas uma gaveta de fatos e passa a ser um lugar onde a gente mora por dentro. Ela organiza quem fomos, sussurra quem achamos que somos e, muitas vezes, tenta decidir quem ainda podemos ser. Por isso ela é, ao mesmo tempo, consolo e ameaça.
Nietzsche fala da “vantagem de ter péssima memória”: poder divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez. Há algo de profundamente humano nisso. Quando a lembrança não fica o tempo todo nos cobrando coerência, o presente ganha mais espaço. Reencontrar uma rua, um livro, um rosto e sentir de novo aquele frescor de estreia é uma forma de o tempo se abrir, em vez de nos estreitar.
Mas Balzac cutuca o lado oposto: “o ódio tem melhor memória do que o amor”. A mente costuma arquivar com nitidez impressionante o tom da frase dura, o atraso, a humilhação, a traição. Já os gestos de cuidado – o copo d’água na madrugada, a mensagem simples num dia ruim, a paciência sem alarde – se apagam com mais facilidade. É como se, dentro de nós, houvesse um escrivão dedicado a registrar o que feriu, e um estagiário distraído encarregado de anotar o que acolheu.
John Lancaster Spalding vai ainda mais fundo ao dizer que a memória tanto pode ser um paraíso do qual não podemos ser expulsos quanto um inferno do qual não conseguimos escapar. Algumas lembranças funcionam como um quintal de infância: lugar ao qual voltamos para descansar, mesmo que já não exista na realidade. Outras são corredores estreitos onde retornamos sem querer, revivendo cenas que já não podem ser mudadas, mas continuam nos governando.
Entre esses extremos, surge uma questão decisiva: qual relação queremos ter com o nosso próprio passado? Não se trata de escolher lembrar ou esquecer à força – isso quase nunca funciona –, mas de decidir que posição a memória terá na nossa vida. Ela pode ser juíza implacável, repetindo sentenças antigas, ou conselheira mais sábia, que não apaga a dor, mas também não impede os passos seguintes.
Stephen Covey propõe uma chave importante: “posso viver da minha imaginação em vez da minha memória; posso me amarrar ao meu potencial ilimitado em vez do meu passado limitado”. Isso não significa negar a história pessoal, mas deslocar o eixo. Em vez de repetir, como um mantra silencioso, “eu sou assim porque sempre fui assim”, abrir espaço para “posso ser um pouco diferente amanhã”. A memória continua ali, mas deixa de ser um destino e passa a ser contexto.
Essa transição é especialmente sensível na meia-idade, quando já existem páginas suficientes para contar e arrependimentos concretos para carregar. Há a tentação de transformar erros em identidade fixa: “eu sou o que fiz de errado”. Ao mesmo tempo, há a possibilidade de reler a própria biografia como rascunho – imperfeito, mas ainda em aberto. Nesse ponto, a imaginação deixa de ser privilégio da juventude e se torna ferramenta de sobrevivência emocional.
O desafio, então, não é “lembrar só o que é bom” nem “esquecer o que dói”, mas aprender a ressignificar. Uma lembrança traumática pode continuar dolorida, mas talvez deixe de ser um inferno fechado se se transforma em aprendizado, limite, alerta. Um momento feliz do passado pode deixar de ser paraíso perdido e virar fonte à qual se volta para lembrar que alegria é possível, mesmo em dias mais opacos.
Praticamente, isso envolve pequenas decisões: escolher quais histórias contar repetidas vezes; a quem damos o poder de definir quem fomos; que cenas merecem um lugar na sala principal da mente e quais podem ser guardadas numa caixa menos acessível. Envolve também aceitar as falhas da memória não só como defeito, mas como mecanismo de proteção – há coisas que, se fossem lembradas em alta definição todos os dias, talvez nos impedissem de seguir.
No fim, a memória é inevitável, mas o modo como nos relacionamos com ela pode mudar. Entre paraíso idealizado e inferno recorrente, existe a possibilidade de um “meio-termo habitável”: um lugar interno em que o passado é reconhecido, a dor é nomeada, a alegria é honrada – e nenhuma delas tem a última palavra. A última palavra, se a gente quiser, pode ser um discreto “ainda posso” dito para si mesmo, olhando não só para trás, mas também, com alguma coragem, para frente.
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